3. BRASIL 4.9.13

1. O GABINETE 595 DO CONGRESSO NACIONAL
2. O PREO DE FAZER O CERTO
3. O EMBAIXADOR DA COCA
4. O CAMINHO DA LIBERDADE
5. O BEM QUE FAZ O FATOR HUMANO
6. O QUE ELE ADMIRA  A DITADURA
7. O SILNCIO DOS INOCENTES
8. DUPLA PERSONALIDADE

1. O GABINETE 595 DO CONGRESSO NACIONAL
Era um momento de humilhao da democracia, deputados transformaram uma cela em extenso do Parlamento  e o Parlamento, por consequncia, na extenso de uma penitenciria.
ROBSON BONIN

     Se, como se diz, a cada quinze anos o Brasil deleta a prpria memria e formata o disco rgido, nunca  demais relembrar o rico repertrio de truques dos polticos para assaltar os cofres pblicos. No escndalo dos anes do Oramento flagrado no comeo da dcada de 90, um grupo de tampinhas fsicos e morais cobrava propinas para favorecer interesses na elaborao da pea oramentaria federal. O golpe principal dos deputados sanguessugas, que estourou em 2006, consistia em embolsar dinheiro destinado  compra de ambulncias. O esquema abrangente do mensalo do PT e de sua base aliada ainda est fresco na memria e, por sua ousadia e pelo elenco de crimes, ficar imortalizado na histria dos subterrneos da poltica brasileira. Mas, como se sabe, esse poo no tem fundo. Sempre se pode cavar mais. Foi exatamente o que os mensaleiros petistas e seus aliados fizeram na semana passada, em Braslia, com a criao de uma entidade indita na poltica brasileira e  quem sabe  mundial: o deputado-presidirio. 
     Destinado a ser esquecido rapidamente por sua atuao mida no baixo clero da Cmara, o deputado Natan Donadon saiu de sua cela na penitenciria da Papuda para entrar na histria pela porta dos fundos. Seu mandato de deputado foi preservado em uma sesso secreta que ignorou seus crimes, chancelados, ento, como atividades compatveis com o ofcio de parlamentar, contra cujo decoro eles no depem. Nos anos 90, Donadon e o irmo, Marcos, desviaram 8,4 milhes de reais dos cofres da Assembleia Legislativa de Rondnia. Marcos era o presidente da Casa. Donadon, o diretor financeiro. Com a ajuda de empresrios, os irmos forjavam pagamentos e dividiam os lucros entre o grupo. H dois meses, Donadon tornou-se o primeiro parlamentar encarcerado no exerccio do mandato desde a Constituio de 1988, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a treze anos de priso pelos crimes de formao de quadrilha e peculato. A evoluo bvia, ditada pela tica mais comezinha e pelo bom-senso, seria a cassao de seu mandato. Mas deu-se o inesperado  ou, para os mais realistas, o esperado. Donadon continua dono de seu mandato de deputado por deciso de seus colegas. 
     Com 81 gabinetes de senadores e 513 de deputados, a deciso formalizou a criao de uma espcie de Congresso avanado, j chamado por alguns de ala da vergonha. No momento, o novo anexo tem apenas um gabinete, o 595, a cela de onde vai despachar a partir de agora o por enquanto solitrio nobre deputado-presidirio Natan Donadon. H, porm, chances reais de, em breve, o pavilho ser ampliado para receber outras autoridades condenadas, polticos de primeira linha, companheiros de crime que continuaro exercendo seu mandato com algema nos braos. 
     O dia em que subiria ao cadafalso poltico, a quarta-feira passada, acabou sendo seu dia de glria. Donadon chegou ao Congresso algemado trazido por uma viatura policial. O uniforme de presidirio fora, porm, substitudo pelo terno escuro. Foi a primeira vez na histria do Parlamento que um presidirio condenado pelo STF por roubar dinheiro pblico e escoltado por policiais discursou na tribuna da Cmara. Deram-lhe a chance e ele aproveitou, emocionando uma audincia que, estranhamente, ou no, se ps no lugar do orador, identificou-se com ele, sentindo por ele as dores do crcere. "Acabo de chegar do presdio da Papuda. Hoje, dia 28, completam dois meses que l estou preso, sendo tratado como um preso qualquer, um preso comum.  muito difcil para mim estar passando por esta situao, numa priso, num isolamento. Na hora de vir para c, fui tomar um banho, e faltou gua na torneira. L no h chuveiro,  uma torneira de gua fria, e justamente hoje faltou gua." Nesse momento, alguns parlamentares chegaram a verter lgrimas. 
     Findo o tempo regulamentar, a palavra de Donadon foi cortada, mas a plateia protestou. A catarse ainda no se dera. Os deputados queriam mais. Era preciso purgar os prprios pecados, purificar a alma, lavar a conscincia no sofrimento trgico do colega. Donadon continuou o discurso. "Eu tenho uma certa fobia e pedi aos agentes que me trouxessem na frente (e no no camburo), mas eles disseram que no podiam. Mas Deus me acompanhou, me deu foras. Nos ltimos dias, tenho sofrido muito financeiramente. H dois meses eu no recebo salrio." Antes do ltimo ato, a encenao de Donadon j tinha a plateia nas mos e, nesse ambiente de identificao absoluta entre orador e ouvintes, ele arrematou: "Eu sou inocente. No tirem o meu mandato, me absolvam, esta Casa  independente". 
     Manter como deputado federal um ladro condenado e preso seria um suicdio moral para qualquer Parlamento, em qualquer democracia. Mas o que so os olhos do mundo quando se tem o corao dos colegas? "Esse discurso sensibilizou muita gente", solidarizou-se o deputado gacho Srgio Moraes (PTB-RS), aquele que um dia disse que se lixava para a opinio pblica. Quando Donadon deixou a tribuna, j estava absolvido. Parlamentares mais experientes sentiam no ar o que se prenunciava. Havia 469 deputados em plenrio quando a votao foi iniciada. Discretamente, parte deles foi deixando o plenrio, forma clssica de fugir da responsabilidade, de lavar as mos em relao ao caso, de ajudar a absolver o colega por omisso. Votaram apenas 405 deputados. Destes, 233 a favor da cassao e 131 contra, e houve 41 abstenes. 
     Eram necessrios, no mnimo, 257 votos para consumar a perda de mandato  faltaram 24. Na frente das cmeras, Donadon ento se ajoelhou e rezou com as mos para cima. Por uma interveno que ele considerou divina, seus colegas o promoveram  histria. Para Donadon, a deciso da Cmara abriu a possibilidade de conseguir na Justia autorizao para frequentar as sesses durante o dia e voltar ao presdio  noite. A medida faria com que ele continuasse com o salrio de 26.723 reais e ainda tivesse a chance de, em tese, contratar os prprios companheiros de cela como assessores  se um condenado pode ser deputado, por analogia tambm um detento poderia assumir o cargo de assessor. Donadon iria comer os pratos servidos nos restaurantes do Congresso, beber um caf expresso e conversar com os amigos. De dia, usaria palet, gravata e broche de autoridade, e  noite voltaria ao uniforme branco, tendo de responder "sim, senhor" aos carcereiros, tomar banho de caneca na torneira da cela e engolir a gororoba servida como refeio e que tanto mal lhe causa, j que, como revelou aos colegas de curiosidade insacivel sobre as condies de vida na cadeia, sofre de "intestino irritado''. 
     Embora difcil de imaginar  e de acreditar , a Cmara dos Deputados abriu caminho para que Natan Donadon seja apenas o primeiro hbrido de parlamentar e presidirio no Brasil. Outros quatro deputados, os mensaleiros condenados pelo Supremo Tribunal Federal a penas de priso, podem se juntar ao pioneiro que levou os colegas s lgrimas na semana passada. Essa, digamos, Bancada da Papuda, no por coincidncia, teve papel preponderante no desfecho da votao que preservou o mandato de Donadon. O painel mostrou que 108 deputados deixaram de votar na sesso. Desse total, cinquenta estavam no plenrio, mas preferiram no se posicionar. De olho no caso idntico dos mensaleiros Jos Genoino (SP) e Joo Paulo Cunha (SP), o PT comandou o boicote, seguido pelo PMDB, ex-partido de Donadon, e pelo PP do mensaleiro Pedro Henry (MT). As trs bancadas juntas, por omisso, deixaram de computar 50 votos, o que acabou beneficiando o colega j preso. De certa forma, foi uma homenagem prestada ao que j est preso por aqueles que logo estaro. 
     O espetculo de emoo e irresponsabilidade da semana passada colocou nas mos das instituies polticas brasileiras um srio dilema. Incorporar a figura esdrxula do deputado-presidirio ao j to estrambtico cenrio do Parlamento  uma opo. Sua viabilidade vai depender do grau de averso da sociedade brasileira. "Isso vai recair sobre todos ns. Amanh vamos apanhar na rua", aleitou o deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP). Henrique Alves, presidente da Cmara, tambm no parece disposto a deixar que a novidade passe no teste das ruas. Ele empossou o suplente de Donadon e pediu ao Supremo a anulao da sesso. Alves decidiu que no colocar outras cassaes em votao enquanto o Congresso no der um fim  votao secreta nesses casos.  uma luz. Alves vai enfrentar resistncia. A mais forte vir do PT, que sonha em preservar o mandato de seus mensaleiros pelo mesmo e cnico processo de esvaziar o plenrio. Tudo  possvel. Afinal, o poo no tem fundo.

O CONGRESSO DO REALISMO FANTSTICO
Condenado  cadeia por formao de quadrilha e peculato (obter vantagem financeira com o cargo pblico), o deputado Natan Donadon conquistou, na semana passada, o direito de continuar deputado. Ou seja, ser prisioneiro e parlamentar ao mesmo tempo. Ter, em tese, as prerrogativas de um congressista, mas ser obrigado a seguir as regras de uma penitenciria. Como isso ser possvel? S mesmo fazendo um exerccio de imaginao.

GABINETE
O parlamentar tem direito a quatro linhas de celular, cinco ramais telefnicos, fax, cinco computadores com internet rpida, TV a cabo, frigobar e mobilirio de escritrio, como poltronas, escrivaninhas e mesa de reunies. O presidirio, no mximo, pode ter uma televiso de 14 polegadas, se tiver bom comportamento.

ASSESSORES
Cada parlamentar tem direito a contratar at 25 funcionrios. Como a Justia no autoriza a presena de estranhos dentro da penitenciria, o presidirio teria de arregimentar internos para ajudar no trabalho parlamentar. Os salrios so muito convidativos.

SALRIO
Como deputado, ele continuar recebendo 26.723 reais. O presidirio pode poupar a renda ou gast-la em um pequeno "supermercado" clandestino que funciona na Papuda

COTA PARLAMENTAR
O deputado tem 32.700 reais por ms para gastar com alimentao e demais despesas do gabinete. Problema: o "supermercado" que funciona na Papuda no emite notas fiscais para reembolso dos gastos.

ORAMENTO
O parlamentar poder destinar at 15 milhes de reais do oramento federal para obras em sua regio. Se direcionar esse dinheiro para a Papuda, ser um reforo e tanto para melhorar a vida dos colegas detentos.

MORDOMIAS
O deputado ainda tem direito a um auxlio-moradia de 3800 reais, passaporte diplomtico, assinatura de jornais e revistas e um salrio no incio e no fim do mandato para ajudar nas despesas - o chamado auxlio-palet.
O presidirio usa cala e camiseta.

ATIVIDADE PARLAMENTAR
O deputado prope e aprova leis. O presidirio est na Papuda exatamente por desrespeitar as leis.

A BANCADA DA PAPUDA
O absurdo ocorrido no plenrio da Cmara dos Deputados abriu espao para a formao de uma nova frente parlamentar no Congresso. A bancada dos presidirios nasce com seis condenados  cadeia pelo Supremo Tribunal Federal  e j  maior que a representao de muitos partidos polticos, como PSOL, PMN, PTdoB, PEN, PRP, PSL, PHS e PRTB.

NATAN DONADON, deputado por Rondnia, expulso do PMDB, condenado a treze anos, quatro meses e dez dias de priso em regime fechado por formao de quadrilha e peculato.

JOS GENOINO, deputado pelo PT de So Paulo, condenado a seis anos e onze meses de priso em regime semiaberto pelos crimes de corrupo ativa e formao de quadrilha.

JOO PAULO CUNHA, deputado pelo PT de So Paulo, condenado a nove anos e quatro meses de priso em regime fechado por corrupo passiva, lavagem de dinheiro e peculato

VALDEMAR COSTA NETO, deputado pelo PR de So Paulo, condenado a sete anos e dez meses de priso em regime semiaberto por corrupo passiva e lavagem de dinheiro

PEDRO HENRY, deputado pelo PP de Mato Grosso, condenado a sete anos e dois meses de priso em regime semiaberto por corrupo passiva e lavagem de dinheiro

IVO CASSOL, - senador pelo PP de  Rondnia, condenado  a quatro anos, oito  meses e 26 dias de  priso em regime  semiaberto por  fraudes em  licitaes

"ELE NO PODE SAIR PARA VOTAR"
O juiz da Vara de Execues Penais de Braslia, Ademar Silva de Vasconcelos,  o guardio dos direitos dos mais de 12.000 criminosos que cumprem pena no presdio da Papuda, em Braslia. No  uma tarefa fcil. A penitenciria abriga os bandidos mais perigosos do Distrito Federal e enfrenta problemas comuns ao sistema carcerrio brasileiro  superlotao, trfico de drogas, falta de condies, fugas. Na semana passada, o deputado-presidirio Natan Donadon, que cumpre pena por formao de quadrilha e peculato, reclamou da comida e do conforto de sua cela. Em entrevista ao reprter Hugo Marques, o magistrado no se sensibilizou: "Isso significa que a pena est tendo efeito".

O deputado Donadon reclamou do tratamento que est recebendo no presdio. Ele tem razo? 
Tem. Ele reclama de um sistema que no foi feito para deputados. Foi feito para condenados. Ele perde o conforto do lar, perde o afago dos familiares, o convvio com os amigos, perde o lazer. Claro que ele vai reclamar, porque est numa situao desconhecida. Todos os seres humanos tm medo do desconhecido. 

Ele est preso em uma cela individual. Isso no  um privilgio? 
Decidi assim para preservar a integridade fsica em relao  massa carcerria e para preservar o cargo dele, de deputado. No posso desconhecer que ele  um deputado federal. Por isso recomendei ao diretor do presdio que o colocasse numa cela individual, o que tambm no  muito bom, do ponto de vista pessoal, porque ele fica isolado das outras pessoas. 

Como deputado, ele corre algum risco? 
Existe a lgica do encarcerado, a lgica do mais forte, do lder positivo ou negativo da massa carcerria. A massa carcerria tem leis prprias, que, sem fazer trocadilho, so leis no editadas pelo Congresso. So leis pessoais, leis da sobrevivncia, leis da malcia do crime. Ele  uma presa fcil porque no tem a malcia, a vivncia. O sentimento dos outros presidirios  que ele tem dinheiro. Quando chega uma pessoa que tem dinheiro dentro de um sistema penitencirio, em que o dinheiro no circula normalmente, isso cria um desconforto para ele e para os outros presos tambm.  

Como o senhor, sendo operador da Justia, v toda essa polmica? 
O deputado est reclamando da perda da liberdade. Isso significa dizer, em termos prticos, no campo penal, que a pena est tendo efeito.  exatamente isso. Est se fazendo a justia e cumprindo a lei como manda a Constituio. 

O deputado tambm reclama da qualidade da comida no presdio da Papuda. 
Eu tambm reclamaria. A dificuldade na Papuda  a seguinte: eu tenho 12.300 presos. Ao meio-dia, preciso ter 12.300 refeies prontas. No se confeccionam 12.300 refeies ao paladar do comensal. E l ele no  um comensal;  um presidirio comum que vai receber a alimentao que o estado lhe der, naquelas condies. Quem est em liberdade escolhe restaurante. Quem paga escolhe o cardpio. 

Como , para o senhor, administrar um sistema carcerrio com 12.300 presos comuns e uma autoridade poltica? 
Isso significa um avano no processo democrtico.  exatamente o que a lei almeja e o povo quer: que a lei seja aplicada a todos, seja voltada para todos, e que haja uma eficcia na lei penal. No me surpreende que exista entre os presos um deputado. Temos ex-juzes, ex-promotores e ex-delegados cumprindo pena. 

O deputado j anunciou que pretende pedir  Justia o direito de participar das votaes no Congresso. 
Isso no  possvel, porque ele no pode votar. Se ele est condenado a pena de recluso superior a oito anos, tem a perda temporria de seus direitos polticos. Ele  preso em regime fechado. At por uma inspirao democrtica, autorizei que ele fizesse sua defesa. Mas ele est em regime fechado. No pode, a exemplo dos outros presos que esto em regime fechado, votar na Cmara. Nem votar como eleitor. Ele nem vota nem  votado. 

O senhor v alguma incongruncia no fato de haver um deputado preso e, ao mesmo tempo, no exerccio do mandato? 
Ns temos dois aspectos. Um  o entendimento se o ato praticado pelo parlamentar fere o decoro. Isso  um juzo de valor coletivo da Cmara. O Supremo Tribunal Federal deixou a critrio da Cmara avaliar o que os militares chamam de pundonor, a tica no exerccio do cargo. Isso  uma questo para o poder constitudo analisar. Da mesma forma,  correto afirmar que ele poderia ter sido absolvido pelo Supremo e perdido o mandato na Cmara. 

No so sinais confusos para a sociedade? 
Nem sempre o anseio do povo  atendido dentro desse aspecto poltico. Isso  um critrio, como ns temos um critrio na Justia. Nosso critrio  a lei. O juiz decide at contra a sua vontade pessoal para julgar de acordo com a lei.  uma evoluo democrtica o fato de hoje fazermos justia. Parece-me bvio, porm, que os critrios podem no satisfazer a todos.  um dilema da sociedade. No podemos resolver todos os anseios apenas com um exemplar do Cdigo Penal debaixo do brao.

O LAMENTO DO MINISTRO BARROSO
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitaram na semana passada todos os recursos do mais simblico dos mensaleiros, o petista Jos Dirceu - aquele que "concebeu, idealizou, comandou, fez executar ou praticou aes criminosas voltadas  permanncia de um determinado grupo no poder", como relembrou o decano Celso de Mello. Condenado a dez anos e dez meses por corrupo ativa e formao de quadrilha, Dirceu tentava escapar da ltima imputao, mas viu seus argumentos ruir em cascata. A mesma sorte teve Jos Genoino, o ento presidente do PT, que assinou os emprstimos forjados para acobertar o maior esquema de corrupo da histria do pas. Com a derrota imposta aos petistas, o Supremo j julgou os recursos de dezenove rus, rejeitando praticamente todos. Se, por enquanto, o destino dos mensaleiros continua imutvel, a cadeia, restou novamente ao ministro Roberto Barroso o momento de destaque no julgamento. Recm-chegado  corte, o ministro vem chamando ateno por manifestar posies simpticas aos rus. Apesar de lembrar sua "opo tcnica" por respeitar os limites formais do que j foi julgado, Barroso no perde uma oportunidade de criticar as penas aplicadas pelos colegas aos mensaleiros, deixando claro que julgaria diferente se j estivesse na corte. Desde que chegou ao tribunal, o primeiro feito de destaque de Roberto Barroso, ao lado do outro novato, Teori Zavascki, foi reverter a deciso da corte sobre o destino do mandato de um parlamentar condenado, o que acabou gerando toda a polmica Donadon. O ministro, dessa vez, surpreendeu os colegas de corte ao homenagear um  dos rus em pleno julgamento. "Lamento condenar um homem que participou da resistncia  ditadura do Brasil num tempo em que isso exigiria abnegao e muitos riscos. Lamento condenar um homem que lutou pela redemocratizao. Lamento, sobretudo, condenar um homem que, segundo todas as fontes, leva uma vida modesta e jamais lucrou com a poltica", disse Barroso. Diante do constrangimento, coube  ministra Crmen Lcia recolocar as coisas no lugar: "Ao julgar Jos Genoino, fiz a ressalva de que julgamos fatos, infelizes, no histrias, que so dignas". Esse comportamento peculiar  que mantm acesas as esperanas dos mensaleiros de ainda escapar da priso no momento em que os ministros analisarem os chamados embargos infringentes, a parte final do processo. Barroso, apesar das simpatias pessoais, j emitiu sinais de que compartilha do entendimento de boa parte da corte segundo o qual esse recurso deixou de existir com a promulgao da Constituio de 1988.


2. O PREO DE FAZER O CERTO
Eduardo Saboia deve ser exaltado por ter dado fim a um impasse diplomtico e feito jus  tradio humanitria do Brasil. Em vez disso, est sendo achincalhado pelo governo.
DUDA TEIXEIRA


     A covardia  a chave para uma vida tranquila. Na hora do aperto, mesmo com injustias sendo cometidas  sua volta, h quem escolha se resignar s circunstncias. E h quem, confrontado com um grave dilema tico, acabe se atendo a convices nobres, e no apenas ao instinto de salvar a prpria pele. Durante meses. Eduardo Saboia, encarregado de negcios do Brasil na Bolvia, acompanhou de perto o definhamento do senador boliviano Roger Pinto Molina, um perseguido poltico que se asilou na embaixada brasileira em La Paz em maio de 2012. Embora o Brasil tivesse dado asilo ao senador, o governo boliviano lhe negara a autorizao para sair do pas. Nas ltimas semanas, Pinto Molina j no fazia exerccios na bicicleta ergomtrica que lhe emprestaram e chorava constantemente. Deprimido e com os laos familiares restringidos por exigncia do governo boliviano, aproximara-se dos militares brasileiros que faziam sua guarda. Para alguns, falava em se matar cortando os pulsos com uma faca ou tentando um choque eltrico. Na manh da sexta-feira 23, o advogado de Pinto Molina entrou duas vezes na sala de Saboia. Disse que, se o seu cliente se matasse, a responsabilidade seria do diplomata, que estava no comando da embaixada. O funcionrio pblico exemplar e orgulhoso de sua funo como ''cumpridor de instrues" ps ento um plano clandestino de fuga em ao. Mesmo sem o salvo-conduto do governo boliviano e sem avisar o Itamaraty  Saboia sabia que no receberia autorizao dos superiores , eles viajariam por 22 horas at a fronteira com o Brasil em dois carros Nissan Patrol da embaixada. Pinto Molina vestiu um colete  prova de bala e Saboia entrou no veculo com uma Bblia e um mapa nas mos. "Se o senador morresse naquela salinha, eu no poderia depois me justificar dizendo que estava apenas cumprindo instrues dos meus superiores", disse Saboia a VEJA aps a sua chegada ao Brasil. "No desejo a nenhum funcionrio pblico viver o que eu passei naquela sexta-feira." 
     Ao saber, no domingo 25, que Pinto Molina estava no Brasil, o governo boliviano inicialmente reagiu com aparente alvio, afirmando que o episdio no afetava as relaes entre os dois pases. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Morales j havia sugerido  presidente Dilma Rousseff, em reunio reservada, que fecharia os olhos se o Brasil tirasse Pinto Molina da embaixada clandestinamente. Ou seja, Morales s no queria dar o salvo-conduto para no parecer que estava amolecendo com os opositores. Dilma teria ficado furiosa com a proposta, da mesma forma que ficou ao saber da insubordinao de Saboia. Uma nota do Itamaraty no prprio domingo afirmava que Saboia estava sendo chamado a Braslia para esclarecimentos e que um processo administrativo seria aberto. Ele pode ser expulso da carreira  diplomtica. Dois diplomatas se recusaram a participar da comisso que o julgar. Por no ter controle sobre os prprios subordinados, o ministro das Relaes Exteriores, Antonio Patriota, teve de entregar o cargo, que foi assumido por Luiz Alberto Figueiredo. J Patriota foi para o lugar de Figueiredo, na chefia da representao brasileira na ONU. A relao entre Dilma e Patriota nunca foi das melhores, porque ela prefere tomar decises seguindo o compasso poltico e se irritava com a abordagem tcnica dele em relaes internacionais. Curiosamente, o governo boliviano s passou a demonstrar indignao e a exigir a extradio de Pinto Molina depois de perceber a tempestade que o Palcio do Planalto comeou a causar em torno do tema. Afinal, do ponto de vista prtico, Saboia resolveu um problema que constrangia e emperrava as relaes entre os dois pases. 
     O castigo a Saboia, portanto, no  proporcional s consequncias de sua insubordinao  principalmente porque, no contente em puni-lo pelos canais oficiais, o governo iniciou um verdadeiro linchamento pblico do funcionrio. "Minha maior preocupao agora  tirar minha famlia da Bolvia, diz Saboia. Na escola de dois de seus trs filhos (o mais novo tem autismo), em Santa Cruz de la Sierra, os colegas perguntavam ameaadoramente na segunda-feira quem eram os parentes do diplomata que tirou o opositor, inimigo nmero 1 de Morales, do pas. Saboia e o embaixador Marcel Biato, que atuou em La Paz at junho, foram afastados de suas funes na Bolvia. Biato tambm teve a nomeao para um posto na Sucia frustrada. 
     Saboia e Biato so diplomatas reconhecidamente fiis s diretrizes governamentais. Quando caminhava pelos corredores da embaixada e negociava o salvo-conduto para Pinto Molina, Biato repetia a todo momento que a vontade da presidente deveria ser cumprida. Ele nem estava em La Paz na ocasio da fuga. Saboia, que faz 46 anos no dia 3, foi um dos mais diletos praticantes e admiradores da diplomacia brasileira iniciada pelo governo Lula e que Celso Amorim definiu como "altiva e ativa" (expresso que, alis,  usada por Saboia). Na infncia, ele foi amigo dos filhos de Amorim e chegou a queimar com o mais velho deles uma coleo de selos nazistas de seu av. Passou em primeiro lugar no concurso para o Itamaraty em 1989 e terminou o curso em segundo na turma. Na lista dos trs homens que ele diz admirar esto o ex-presidente Lula, Amorim e o seu pai, Gilberto Saboia, que foi membro da Comisso de Direito Internacional da ONU. Eduardo Saboia  o tipo de funcionrio pblico que se exaspera com a ineficincia. Uma amostra disso foi o seu empenho em negociar a libertao dos doze corintianos presos em Oruro acusados de ter lanado um sinalizador que matou o torcedor boliviano Kevin Espada, de 14 anos, durante um jogo em fevereiro. Saboia foi dezoito vezes  cidade para negociar a soltura do grupo, que fora preso sem provas. No incio, levou calmantes, que comprou com o prprio dinheiro, e cobertores para os torcedores. Na Pscoa, Saboia chegou a levar a mulher e os dois filhos  priso para comer e rezar uma missa com os detentos. Quando todos os outros escales da hierarquia diplomtica pareciam ter abandonado o problema, Saboia insistiu nas negociaes e pouco a pouco conseguiu o retorno dos torcedores ao Brasil (na semana passada, trs deles foram identificados como incitadores de uma briga em um jogo em Braslia). 
     Pela eficincia com que defendiam os interesses brasileiros, Saboia e o embaixador Biato  este um grande estimulador da maior presena da Polcia Federal na Bolvia para auxiliar no combate ao narcotrfico  comearam a ser boicotados pelo governo Evo Morales, com a conivncia da administrao Dilma. Em uma reunio realizada entre representantes dos dois pases em maro, em Cochabamba, Biato e Saboia foram deixados do lado de fora por Patriota, atendendo a um pedido do ministro da Presidncia, Juan Ramn Quintana. O boliviano, acusado de ligaes com um narcotraficante brasileiro (veja a reportagem na pg. 58), tambm exigiu a troca do embaixador e a restrio s visitas a Pinto Molina. O governo brasileiro assentiu. Em junho, Biato deixou o posto e Saboia passou a ser obrigado a barrar os amigos polticos de Pinto Molina na porta da embaixada. "A subservincia da poltica externa brasileira aos interesses bolivianos vem de longe", diz Ricardo Ferrao (PMDB-ES), presidente da Comisso de Relaes Exteriores do Senado, que foi buscar Saboia e Pinto Molina de avio em Corumb aps a bem-sucedida fuga da Bolvia. Ao colocar a afinidade do seu partido, o PT, com o sub-bolivarianismo de Morales  frente dos interesses brasileiros, o governo Dilma acaba com o espao de ao dos seus diplomatas. "Esse  o tipo de situao que leva a atos deseperados como o de Saboia", diz Rubens Ricpero, ex-embaixador do Brasil na Itlia. Em terra de covardes, um funcionrio pblico que tem princpios pode virar um rei. 

UM PERSEGUIDO POLTICO
     Quando o advogado e pecuarista Roger Pinto Molina, do estado de Pando, na fronteira com o Acre, se tornou o chefe da oposio ao governo de Evo Morales, sua vida se transformou. Ao ajudar os colegas senadores e outros opositores a apontar os vnculos entre os funcionrios de alto escalo do poder e o narcotrfico, passou a ser atacado verbalmente por diversos membros do governo, e vinte acusaes foram levantadas contra ele na Justia. 
     Oito delas so por desacato. Foram iniciadas por quadros do governo enfurecidos com suas revelaes: o vice-presidente lvaro Garcia Linera e o ministro da Presidncia Juan Ramn Quintana. Entre as demais, h uma por desmatamento. Duas rvores teriam sido cortadas em sua propriedade. O senador estava em La Paz na ocasio, mas seria cmplice por no ter denunciado o fato. A aparente contraveno poderia lhe render oito anos de priso. Ele tambm  acusado de assassinato, mas o processo no diz quem ele teria matado. Existe homicdio sem vtima? 
     Quatro acusaes so por corrupo. Em junho, quando o senador ainda estava na embaixada em La Paz, ele foi condenado a um ano de priso por trs delitos, entre eles o de ter se apoderado de recursos destinados  Universidade Amaznica de Pando. O julgamento ocorreu sem a presena do ru e sem que ele tivesse a chance de se defender. 
     Assim que o senador ps os ps na embaixada em La Paz, os diplomatas brasileiros cuidaram de levantar informaes fidedignas sobre seu novo hspede. Era crucial dissipar a dvida se se tratava de um criminoso que deveria ser entregue  polcia ou um perseguido poltico, contra o qual o governo da Bolvia levantara acusaes falsas apenas para calar uma voz dissidente. A resposta veio onze dias depois, com a concesso de asilo poltico. "Seja bem-vindo ao Brasil", disse o embaixador Marcel  Biato ao anunciara deciso brasileira de reconhecer em Pinto Molina um perseguido poltico. 
     La Paz agora quer obter de Braslia a repatriao do senador que os diplomatas brasileiros abrigaram e ajudaram a fugir da Bolvia. Vontade de ceder ao narcoestado vizinho no falta ao governo do PT. O ministro-chefe da Advocacia Geral da Unio (AGU), Lus Incio Adams, chegou ao absurdo de afirmar que Pinto Molina ter de refazer seu pedido de asilo poltico. Adams no sabe que o direito internacional reconhece as embaixadas como territrios do pas representado? Sabe. Mas atualmente, no seio do governo do PT, ignorar, fingir, virar o rosto para no ver malfeitorias e abusos dos direitos humanos tem valido a pena para os burocratas. Vale tudo, desde que sirva aos interesses polticos do pan-esquerdismo latino-americano, doutrina que os petistas colocam acima, muito acima, dos interesses nacionais brasileiros. 


3. O EMBAIXADOR DA COCA
Jerjes Justiniano tem currculo de sobra para ser o legtimo representante do narcoestado boliviano em Braslia.
DUDA TEIXEIRA

     O motivo primordial da perseguio poltica que levou o senador Roger Pinto Molina a pedir asilo na Embaixada do Brasil em La Paz foi um dossi que ele entregou no Palcio Quemado, sede do Executivo boliviano, em maro de 2011. O pacote trazia cpias de relatrios escritos por agentes da inteligncia da polcia boliviana em que se desnudava a participao de membros do partido do presidente Evo Morales, o Movimento ao Socialismo (MAS), e de funcionrios de alto escalo do seu governo no narcotrfico. Alguns desses documentos posteriormente tambm foram obtidos por VEJA e serviram de base para a reportagem "A Repblica da cocana", de 11 de julho de 2012. Neles, afirma-se que o atual ministro da Presidncia da Bolvia, Juan Ramn Quintana, e a ex-modelo Jessica Jordan entraram na casa do narcotraficante brasileiro Maximiliano Dorado, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 18 de novembro de 2010. Os dois saram cada um com duas maletas tipo 007. A inteno do senador hoje refugiado no Brasil era que o presidente Morales mandasse investigar as denncias, e assim contribusse no combate  indstria da pasta de coca  matria-prima contrabandeada para o Brasil para a produo de cocana e crack  e  rede de corrupo ligada a ela. 
     Nenhum suspeito foi interrogado. Em vez disso, Morales iniciou a perseguio ao senador Pinto Molina e nomeou para o posto de embaixador no Brasil o advogado Jerjes Justiniano, que assumiu h um ano com a misso expressa de fazer frente s denncias contra os narcofuncionrios da Bolvia. Morales poderia ter escolhido algum menos comprometido com o assunto para desempenhar esse trabalho. O filho do embaixador, o tambm advogado Jerjes Justiniano Atal, tem entre seus maiores clientes justamente funcionrios do governo acusados de narcotrfico. Pior do que isso, Atal, que no passado dividiu o escritrio com o pai, foi o advogado do americano Jacob Ostreicher, que investiu 25 milhes de dlares em plantaes de arroz na Bolvia em parceria com a colombiana Cludia Liliana Rodriguez, scia e mulher de Maximiliano Dorado. Resumindo a histria: o filho do embaixador defendeu o scio da mulher do traficante brasileiro, aquele que recebeu em sua casa o ministro denunciado por Pinto Molina. Trata-se, no mnimo, de uma coincidncia constrangedora para o papel que Justiniano veio desempenhar no Brasil. 
     Igualmente constrangedor  um vdeo de quatro minutos que mostra o embaixador visitando a fbrica do narcotraficante italiano Dario Tragni, em Santa Cruz de la Sierra, no incio de 2010. Na ocasio, Justiniano era candidato ao governo de Santa Cruz pela legenda do presidente Morales. Ele foi derrotado na eleio, que ocorreu em abril. No tour pela fbrica de madeira Sotra, Justiniano percorreu as dependncias do local ciceroneado por um Tragni falante e irrequieto. "Esta  uma das mquinas mais produtivas da Amrica Latina", disse Tragni, apontando para um de seus equipamentos. Justiniano perguntou: "Esto exportando para onde?". O italiano respondeu orgulhoso que para Espanha, Itlia, Estados Unidos e Alemanha. Participou tambm da visita amigvel Carlos Romero, atual ministro do Governo da Bolvia e responsvel pela segurana interna do pas. O incrvel desse episdio  que poucos meses antes, em novembro de 2009, a polcia encontrara na Sotra diversos recipientes com cocana, somando 2,4 quilos. No quarto de Tragni, foram apreendidos uma balana e um liquidificador com vestgios de cocana. Um dos conhecidos meios para transportar drogas usado pelos traficantes bolivianos  escond-las dentro de compensados de madeira para exportao. 
     Em tempo: em outubro do ano passado, o ator americano Sean Penn foi nomeado por Morales como embaixador mundial da coca. Nem precisava. A Bolvia j tem Jerjes Justiniano despachando em Braslia. 


4. O CAMINHO DA LIBERDADE
Os reprteres de VEJA refizeram o trajeto percorrido pela comitiva brasileira que retirou o senador boliviano das mos do narcoestado do presidente Evo Morales.
ADRIANO CEOLIN E CRISTIANO MARIZ (FOTOS). DE LA PAZ

La Paz  Curumb - Braslia

La Paz (comeo): Na sada da cidade boliviana rumo a fronteira com o Brasil, a estrada  de terra e homens armados da Polcia Nacional inspecionam os carros.
316 km: Oruro
489 Km Cochabamba: Ao lado de um posto da polcia antidrogas, uma feira de beira de estrada oferece folha de coca aos viajantes. Por causa da ao dos oficiais, o trnsito ali  lento e muitos param para comer e descansar.
1111 km Santa Cruz de la Sierra: No estado mais rico da Bolvia, a rodovia, de boa qualidade,  deserta. Ao longo de centenas de quilmetros, no se v uma pessoa sequer. A falta de postos de combustvel obriga os motoristas a levar gales com gasolina de reserva.
1518 km Puerto Quijarro: A menos de meio quilmetro da fronteira com o Brasil, j  possvel avistar a cidade de Corumb (MS). A barreira da alfndega boliviana, com quatro oficiais de planto, no exige documentos de quem passa. Na entrada do Brasil, h um posto da Polcia Federal, mas a passagem tambm  liberada.
Corumb  Mato Grosso do Sul
Voo para Braslia

     A sede da embaixada brasileira em La Paz fica a trs quadras do Ministrio da Justia e a menos de 2 quilmetros do palcio do governo do presidente Evo Morales. Para no chamar ateno, o diplomata Eduardo Saboia combinou com o senador Roger Pinto Molina que a expedio sairia no meio da tarde, porque assim o comboio atravessaria  noite a regio cocaleira do Chapare, o ponto considerado mais crtico do trajeto de 1600 quilmetros at a fronteira com o Brasil. Sem luz natural, ficaria mais difcil algum reconhecer o senador, que seguiu no banco de trs de um Nissan Patrol vestindo um colete  prova de bala e protegido por um fuzileiro naval. "O importante  preservar a sua vida", explicou o diplomata antes da partida. Para evitar atrair a ateno dos prprios funcionrios da representao e, por tabela, impedir uma eventual tentativa de rastreamento, o telefone celular e o computador do senador foram deixados para trs, ligados, como se ele continuasse trancado na sala ocupada durante os 455 dias de confinamento  espera do salvo-conduto que nunca veio. Exatamente s 15 horas da sexta-feira 23 comeou a jornada do grupo em direo ao Brasil. 
     VEJA percorreu a rota de fuga seguida pelo diplomata e pelo senador. Para cumprirem o trajeto, eles atravessaram reas desertas tomadas por plantaes de coca, romperam inclumes as barreiras da polcia do presidente Evo Morales e se submeteram ao risco de acabar nas barras dos chamados tribunais comunitrios  uma modalidade bolivariana de justia de exceo em que, com o aval do governo central, o povo pode julgar e condenar aqueles que considera inimigos. Quase sempre, os "inimigos" submetidos s sanes populares so tambm desafetos do cocalero Evo. Era o caso de Molina. A rota tambm  a mesma que serve de passagem para os carregamentos da droga produzida em solo boliviano que abastece regularmente o mercado brasileiro. O trajeto mistura reas bem vigiadas e outras totalmente desertas, em que o nico sinal de vida que se v ao longo de horas se limita a rebanhos de cabras comendo o capim seco que margeia a rodovia. O comboio teve de superar mais de vinte barreiras vigiadas por homens do Exrcito e pela Fora Nacional de Luta contra o Narcotrfico, a polcia de elite boliviana incumbida da desafortunada misso de combater o narcotrfico num pas em que a plantao da principal matria-prima de drogas como cocana e herona  patrocinada pelo governo. A seguir, o passo a passo da jornada, dificultada pelo ar rarefeito e pelas curvas sinuosas dos Andes bolivianos. 

KM 0 A embaixada brasileira em La Paz, onde Molina estava refugiado, fica no centro da cidade, a apenas trs quadras do Ministrio da Justia e a menos de 2 quilmetros do palcio onde despacha o presidente Morales. Molina saiu de l no meio da tarde do ultimo dia 23. A paisagem da cidade d a exata dimenso de um pas comandado por um governo autoritrio influenciado pela cartilha bolivariana do falecido vizinho Hugo Chvez. Um retrato de Evo Morales com mais de 15 metros de altura irrompe em meio aos prdios e casas. No cartaz gigante, afixado na fachada de um edifcio, o presidente que mudou a lei para exercer um terceiro mandato consecutivo aparece sorridente ao lado do slogan "Ptria soberana, povo digno". A propaganda  clara. E a mensagem tambm: quem manda no pas, um dos mais pobres da regio,  um lder populista cujo governo aposta nas antigas receitas de ditaduras de esquerda, com controle absoluto da atividade econmica e tratamento marcial a polticos de oposio. Molina, o senador que fugiu, era um deles. 

KM 15 Na sada de La Paz, o primeiro obstculo  um pedgio que separa a capital do municpio perifrico de El Alto. Dois policiais acompanham a movimentao dos veculos. A passagem  feita com rapidez para minimizar os congestionamentos. Para pagar a tarifa, os motoristas praticamente atiram nos guichs de pedgio as moedas de dois pesos bolivianos (o equivalente a 70 centavos de real;. A rea em volta  uma grande invaso que lembra as favelas do Brasil. A imensa maioria das casas  de alvenaria sem reboco. Nas paredes se repete a frase "Evo at 2050  imprescindvel", pintada sempre de branco e azul, as cores do partido do presidente, o MAS (Movimiento Al Socialismo). Nos postes de luz em frente a estabelecimentos comerciais, bonecos so pendurados para intimidar possveis ladres. A violncia est no ar. E a mensagem, mais uma vez,  clara: quem roubar por ali ser enforcado  

KM 83 A caminho de Oruro, h dezenas de pequenas comunidades cujos moradores vivem em casinhas de barro e teto de palha. Essas famlias tm como principal atividade o plantio de batatas e a criao de ovelhas. A proximidade com a estrada facilita o comrcio e o escambo. A maioria dos bolivianos dali  de ascendncia indgena aunar, a mesma do presidente Morales. Os homens fazem os servios mais pesados e as mulheres e os mais idosos pastoreiam as ovelhas. Eles parecem pacficos. Mas s parecem. Em 2004, uma dessas comunidades ficou famosa por fazer justia com as prprias mos contra um poltico suspeito de corrupo. A pequena comunidade de Ayo Ayo, de apenas 200 habitantes, linchou com pedradas e pauladas o ento prefeito, Benjamn Altamirano. Em seguida, ele teve o corpo queimado em cima de um tronco na praa do vilarejo. O caso ilustra o funcionamento dos chamados tribunais comunitrios, que atuam sem que o governo Morales imponha restries, especialmente quando os alvos so seus rivais. 

KM 242 Nos Andes bolivianos, o frio ataca sem d as famlias que vivem  beira da estrada. O comboio que levava o senador passou pela regio  noite, quando as temperaturas costumam baixar ainda mais. A neve cobre o topo das montanhas. 

KM 316 Um caminho tombado sobre a pista revela que o perigo da rota tambm est nas curvas das estradas. Sem acostamento nem sinalizao, a via fica muito prxima de paredes rochosas de um lado e de penhascos do outro. As curvas so fechadas e exigem percia do motorista. Quase todo o trajeto tem de ser feito em pista nica. As ultrapassagens so arriscadas. A administrao das estradas  do estado, que agora propagandeia suas obras para melhorar a qualidade das vias. Justamente por causa desses canteiros de obras, h desvios e congestionamentos pelo caminho. 

KM 356 Como viajou no sbado, Pinto Molina no enfrentou um problema cada vez mais comum: as manifestaes nas rodovias, muitas delas organizadas por partidrios de Morales, arregimentados pelo prprio governo para reivindicar medidas que depois vo ser gentilmente atendidas pelo presidente populista. Na quarta-feira  tarde, perto da entrada da cidade de Cochabamba, um grupo bloqueava a pista. Havia um engarrafamento de caminhes. Quem quisesse passar tinha de recorrer a uma rota alternativa por ruas estreitas, de terra. Numa delas, uma corda esticada por moradores impedia que carros e vans avanassem. A passagem s era liberada para quem pagasse 2 pesos  o mesmo preo do pedgio, s que agora cobrado extraoficialmente. Quem no quisesse perder tempo era obrigado a pagar. 

KM 489 A longa viagem vara a noite. Para amenizar os efeitos do cansao, os motoristas bolivianos mascam folha de coca, que serve de estimulante e ajuda a evitar o sono ao volante. Pacotes com a folha so vendidos por ambulantes ao longo da estrada, sobretudo nas proximidades de pedgios. Um saco pequeno, com 50 gramas, custa 5 pesos bolivianos, ou menos de 2 reais. Entre Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, a folha era vendida a poucos metros de um posto da polcia antinarcticos. O comrcio  permitido. O uso da folha tambm. As barreiras policiais so conhecidas pelos bolivianos como "trancas", porque literalmente travam o fluxo de veculos na estrada. Na quinta-feira de madrugada, sete policiais faziam a revista de nibus e vans. Foi em uma "tranca" que o carro que levava o senador fugitivo foi abordado por oficiais bolivianos. Como o veculo tinha placa diplomtica, a liberao no tardou, e nem foi preciso que os passageiros mostrassem documentos. 

KM 1111 Em Santa Cruz de la Sierra, a boa notcia  que a viagem se aproxima do fim. O temor passa a ser outro: o de que a gasolina acabe. Aconteceu com a comitiva do senador Molina e do diplomata Saboia. Com medo de ficarem na estrada, eles  Molina, evanglico, e Saboia, catlico fervoroso  comearam a rezar. Naquele extremo, a estrada, reta e plana,  de excelente qualidade, feita de concreto. Ao longo de muitos trechos sem residncias nem comrcio por perto, no h nem sinal de postos de combustvel. Por isso,  fundamental carregar um galo extra de gasolina no bagageiro. Quando finalmente surge um posto, outro problema: a venda de combustvel  racionada por soldados do Exrcito, para evitar que a gasolina boliviana mais barata (o equivalente a 1,30 real o litro) seja revendida em territrio brasileiro. Os militares autorizam a compra de apenas 20 litros por galo avulso. 

KM 1500 Logo aps o ltimo pedgio da rota de fuga, h um posto de fiscalizao ocupado por dois soldados. Eles param o carro de VEJA e pedem os documentos do motorista boliviano e dos passageiros. "Onde esto os vistos, cad os dois extintores de incndio e o tringulo'?", pergunta um deles. Quando encontram qualquer irregularidade, o pedido de propina  incontornvel. Como no podiam fazer nenhuma exigncia, restou aos soldados pedir ao motorista que, na volta, deixasse para eles uma garrafa de refrigerante. 

KM 1518 Na jornada de Molina, o ltimo desafio era atravessar a fronteira perto da pequena cidade de Puerto Quijarro, j vizinha a Corumb, em Mato Grosso do Sul. A passagem, porm,  tranquila. Os oficiais do posto da alfndega boliviana no impem obstculos a quem passa. Nem os policiais federais brasileiros, j do lado de c. A fronteira se mostra escancarada. 


5. O BEM QUE FAZ O FATOR HUMANO
Eduardo Saboia junta seu nome ao de admirveis diplomatas que puseram sua vida e carreira em risco, desobedecendo ao governo para seguir o que sua conscincia ditava.
NATHALIA WATKINS

Um diplomata  um sonhador e eu jamais poderia, por isso, ser um poltico que vai praticando atos irracionais. Talvez eu seja um poltico, mas desses que s jogam xadrez quando podem faz-lo a favor do homem. O poltico pensa em minutos. Eu penso na ressurreio do homem", disse Joo Guimares Rosa, o autor de Grande Serto: Veredas, livro que a presidente Dilma Rousseff est sempre relendo e cujas passagens mais marcantes ela sabe de cor. Rosa, morto em 1967, serviu como cnsul adjunto do Brasil em Hamburgo de 1938 a 1942, o auge do poder nazista na Alemanha. A experincia nesse perodo deu-lhe a medida exata da misso humanitria da diplomacia. O escritor e a chefe da seo de passaportes do consulado, Aracy Moebius de Carvalho, com quem se casaria, contrariaram o governo brasileiro e ajudaram incontveis famlias de judeus a escapar da morte nos campos de concentrao de Adolf Hitler. Aracy morreu em 2011, aos 102 anos, deixando uma lio de independncia que faz dela talvez a brasileira universalmente mais respeitada e admirada. Aracy desafiava a obrigatoriedade de marcar com "J" os passaportes dos judeus. Ela ludibriava o cnsul juntando as autorizaes de visto com o resto da papelada que o cnsul deveria assinar. Guimares Rosa tomou conhecimento do esquema e a apoiou. Abrigou judeus em sua casa, transportou outros para pases vizinhos escondidos no carro consular e cuidou de seus pertences, que, de outra forma, seriam confiscados pelos nazistas. Aracy e Guimares Rosa foram investigados pelas autoridades do Brasil e da Alemanha. 
     O governo Getlio Vargas tinha simpatia pelo fascismo e era antissemita. A mquina diplomtica seguia  risca os desejos do dono do poder na era Vargas. Em junho de 1937 o Ministrio de Relaes Exteriores emitiu uma resoluo secreta que restringia a entrada de "semitas" no pas. Essa aberrao s teria fim em 1942, quando o governo brasileiro, finalmente, entendeu a monstruosidade do nazismo e aliou-se aos Estados Unidos,  Inglaterra e  Unio Sovitica contra Hitler. No existe nada de anormal em um Ministrio de Relaes Exteriores alinhar-se ao ncleo do governo e sua ideologia. A poltica externa  uma continuao da poltica interna. Isso no  uma deformao brasileira.  universal. Nos Estados Unidos, as relaes exteriores so conduzidas pelo Departamento de Estado. O nome diz tudo sobre a necessidade de alinhamento automtico e disciplinado da diplomacia com o poder central. 
     O extraordinrio na diplomacia e em qualquer estrutura burocrtica  a coragem individual de se insurgir contra a instituio quando ela est claramente equivocada. Em momentos mais duros da ditadura militar, que durou de 1964 a 1985, o Itamaraty foi orientado a no prestar nenhum tipo de ajuda ou servio a brasileiros inimigos do regime no exterior. Obviamente, era obrigatrio no Itamaraty rebater como falsas quaisquer denncias de tortura praticadas por agentes do governo contra insurgentes no Brasil. Em um ato de inslita coragem, o diplomata Miguel Darcy de Oliveira, servindo na chancelaria brasileira em Genebra no comeo dos anos 1970, entregava secretamente documentos comprovando abusos do regime  Anistia Internacional e  Cruz Vermelha. "Era importante fazer circular aquelas informaes fora do pas, onde havia liberdade de expresso", lembra Oliveira. Descoberto, foi convocado para uma reunio no Brasil. Oliveira foi preso no Palcio do Itamaraty. Passou quarenta dias incomunicvel. Ao ser libertado, fugiu para o Chile e depois para a Sua, onde viveu por dez anos como exilado poltico. Diz Oliveira: "No se pode abdicar do direito de pensar com a prpria cabea em situaes excepcionais". 
     Quando o Brasil j sara do perodo mais sombrio da ditadura, nos anos sob comando do general Ernesto Geisel, o  embaixador talo Zappa teve seu grande momento. O governo brasileiro ainda se recusava a conceder documentao oficial a exilados polticos, mas mesmo assim Zappa emitiu passaportes, oficializou casamentos e registrou filhos dos exilados. Nunca achou nada de mais o que fez e dizia ter apenas respeitado "direitos constitucionais"'. 
 vital para a sade cvica  das naes que os Rosa, Oliveira, Zappa e Saboia tenham a iniciativa de contrariar a mquina diplomtica quando ela, no af de agradar ao poder central, contraria os diretos constitucionais dos brasileiros ou se torna cega aos apelos humanitrios. H trs semanas, a coluna Radar de VEJA revelou que em 1980 Joaquim Barbosa, o atual presidente do Supremo Tribunal Federal, se submeteu a uma prova oral no Instituto Rio Branco, porta de entrada para o Itamaraty. Joaquim tinha ido bem nos exames escritos, mas foi barrado depois da entrevista. O relatrio do avaliador explicava que ele tinha uma "autoimagem negativa" e conclua que aquela caracterstica "poderia parcialmente ter origem na sua condio de colored". O episdio, at pela escolha da expresso em ingls "colored", a forma oficial prevalente ento na burocracia americana para definir uma pessoa negra, deixa transparecer que, mesmo veladamente, o Itamaraty era uma repartio que escolhia seus membros levando em conta a cor da pele. Mas s o Itamaraty era racista no Brasil do comeo dos anos 80?  difcil afirmar que sim. Os diplomatas apenas incorporaram um preconceito fortemente disseminado na sociedade brasileira e no governo naquele tempo. Isso  normal. O extraordinrio seria se o avaliador tivesse se rebelado e admitido Joaquim Barbosa nos quadros da diplomacia brasileira. Certamente o nome do avaliador seria conhecido, admirado e estaria ao lado de Saboia, Oliveira, Zappa e Rosa. 


6. O QUE ELE ADMIRA  A DITADURA
O socialismo no funciona. O que funciona  a ditadura. A cubanizao do Brasil iniciada pela importao de mdicos  prova disso. Eles so confinados e obedecem apenas a Havana.
LEONARDO COUTINHO E DUDA TEIXEIRA

     Quando um cidado que vive em uma ditadura consegue de l escapar, a chegada a uma democracia  um momento de xtase. Entraram para a histria imagens de alemes-orientais alcanando a liberdade na vizinha ocidental, norte-coreanos abraando seus parentes do sul e cubanos comemorando a chegada a Miami em balsas improvisadas com pneus de trator. Na semana passada, 400 mdicos cubanos chegaram ao Brasil, mas no puderam celebrar a sada da ilha nem desfrutar a plena liberdade concedida pela nossa democracia. Eles no tiveram como apreciar as belezas do Pelourinho de Salvador nem como passear pela Praia de Boa Viagem, no Recife. Ficaram aquartelados em instalaes das Foras Armadas, pois ainda so vigiados de perto pelo regime de Havana. O programa Mais Mdicos, que tem como principal objetivo alavancar a candidatura do ministro da Sade, Alexandre Padilha, ao governo de So Paulo pelo PT, no trouxe apenas mdicos cubanos. Importou com eles a ditadura dos irmos Castro. At o fim deste ano, haver no Brasil 4000 mdicos cubanos vivendo como 4000 pequenas ilhas de totalitarismo onde a lei brasileira no tem valor. 
     O programa em si  bem-vindo. A sade  um dos maiores problemas brasileiros, como pode ser aferido em qualquer pesquisa de opinio e nos cartazes dos manifestantes que ocuparam as ruas em junho pedindo hospitais de padro Fifa. H carncia de mdicos nas periferias das grandes cidades e em grotes do Norte e do Nordeste.  legtimo que estrangeiros que aceitem receber os 10.000 reais mensais recusados por brasileiros preencham as vagas. Esse problema, porm, no pode encobrir outro maior: os cubanos serviro  ditadura de Havana, no ao Brasil. O salrio de 10.000 reais ser enviado a Cuba, que repassar apenas uma parte aos doutores. Os cubanos no podero trazer seus parentes nem escolher onde vo trabalhar. Se um deles decidir abandonar o projeto para se casar e morar definitivamente no Brasil, "ser devolvido a Cuba", como admitiu Padilha. As mesmas regras no valem para os profissionais que esto vindo de pases democrticos, que seguiro a lei brasileira. Para garantir a lealdade forada aos irmos Castro, os mdicos chegaram ao Brasil tutelados pela vice-ministra da Sade, Mrcia Coba, uma interferncia indevida de uma ditadura em uma democracia. 
     Na ltima segunda-feira, 79 cubanos foram vaiados e chamados de "escravos" por mdicos do Cear quando deixavam o primeiro dia do treinamento em Fortaleza. A reao  condenvel. Os cubanos so vtimas de uma ditadura e vieram para c em misso oficial. Mas a vaia serviu aos propsitos do governo de desviar o foco da discusso. Debateu-se se os mdicos brasileiros so xenfobos e racistas e deixaram-se de lado os problemas do programa e as mentiras do ministro Padilha. H um ms, pressionado por associaes de mdicos, ele garantiu que a parceria com Cuba havia sido descartada. Pura enrolao. Desde novembro passado, os cubanos estavam sendo preparados com aulas de portugus e de doenas contagiosas comuns no Brasil. Em 14 de agosto, no Congresso, Padilha descartou a possibilidade de brasileiros perderem seu emprego para estrangeiros. Na semana passada, porm, prefeituras do Norte e do Nordeste j faziam a temida substituio, j que os estrangeiros recebem menos e so bancados pelo governo federal. No incio da discusso sobre a importao, o governo negou que o salrio dos mdicos seria pago ao governo cubano. Agora, no s a manobra foi confirmada como recebeu elogios do ministro Gilberto Carvalho: "Ns entendemos que  justo que o povo cubano, que se sacrificou pela formao desses mdicos, tenha tambm a possibilidade de auferir os rendimentos que esses mdicos vo ter no pas". 
     A exportao de mo de obra para pases amigos  hoje a maior fonte de receita de Cuba (veja quadro na pg. 68). O pas caribenho sempre precisou de mecenas. De incio, foi a Unio Sovitica, que recebia acar e fornecia petrleo a preos camaradas. Com o fim do comunismo na Europa, Cuba passou a viver  mngua. Profissionais com curso superior faziam bico para ganhar dlares de turistas e completar seus salrios miserveis. Com a chegada  de Hugo Chvez ao poder na Venezuela, os irmos Castro ganharam outro padrinho, que importava mo de obra e pagava com petrleo. Hoje, h 60.000 cubanos na Venezuela. Os mdicos foram os precursores, seguidos por militares, tcnicos em agricultura e agentes de inteligncia. "Nenhum deles chega sem preparao ideolgica e poltica. A retrica mascarada  a mesma: falam em colaborar com a sade e ajudar os pases irmos, mas o que querem  gerar divisas para o governo cubano. Nunca aparecem em pblico e trabalham com discrio", avalia o cientista poltico Omar Noria, da Universidade Simn Bolvar. "No Brasil, ser a mesma receita, a mesma histria." 
     Os primeiros dias dos cubanos no Brasil parecem confirmar a previso de Noria. Para reduzir os riscos de desero, Cuba selecionou a dedo os enviados. Todos j passaram por pelo menos uma misso internacional, alguns so professores universitrios, tm mais de quinze anos de experincia e foram condecorados por "servios prestados ao regime". Enquanto os europeus e sul-americanos vieram acompanhados da famlia, hospedaram-se em hotel e puderam escolher a cidade onde vo trabalhar, os cubanos foram enviados a quartis para esperar a definio por superiores acerca de seu destino  com os familiares em Cuba, para sofrer eventuais retaliaes. Os poucos que aceitam falar com brasileiros recitara frases sobre ''socialismo", "internacionalismo" e "solidariedade entre os povos. 
     Na quarta-feira passada, o uruguaio Gonzalo Casaman aplicou os primeiros socorros a uma ambulante atropelada em Vitria de Santo Anto (PE). Foi mostrado como prova do sucesso do programa. O mesmo papel de heri, porm, no poderia ter sido desempenhado por um cubano, j que ele no tem o direito de ir e vir e s deixa o curso com ordem superior. "Somente os chefes da misso, que tm a confiana do regime, podem transitar livremente pelas ruas", disse a VEJA um doutor cubano que atuou na Nicargua. So tantas as aberraes e abusos que passaram sem a devida anlise as ameaas do PT de punir os conselhos regionais de medicina que reprovarem mdicos cubanos por falta de qualificao profissional. Calma, gente, vocs importaram s os mdicos; a ditadura cubana, felizmente, ficou em Havana. Esta  a segunda vez que o Brasil importa cubanos. No fim da dcada de 90, cerca de 300 deles chegaram a Tocantins, Roraima, Pernambuco, Cear, Par e Acre em convnios entre os estados e Cuba. O salrio ficava com o mdico e no havia perseguio aos que desistissem. Um deles, Josu Jesus Paneque Matos, casou-se com uma brasileira, naturalizou-se e hoje  prefeito de Mucaja, em Roraima. Se tivesse chegado no navio negreiro de Padilha, Matos seria preso e deportado pelo petista  como Lula fez com os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Eles escaparam nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio, mas foram recapturados pela polcia petista e devolvidos a Cuba. Isso tudo quase dois sculos depois do caso Dred Scott, de 1857, considerado o mais infame da histria da Suprema Corte dos Estados Unidos. Scott acompanhou seu dono, que se mudou do estado escravocrata do Missouri para Illinois e depois Wisconsin, onde no havia escravido. De volta ao Missouri, Scott se declarou um homem livre. Recorreu  Justia com a tese de que "uma vez livre, sempre livre". O caso chegou  Suprema Corte e decidiu-se que Scott continuava propriedade de seu dono, mesmo tendo residido em territrios sem escravido. Foi um erro colossal. Ele implicava que a escravido acompanhava a pessoa, mas a liberdade no. Abraham Lincoln e uma guerra civil que matou mais de 600.000 pessoas depois, o erro foi reparado. Desde ento a liberdade passou a ser vista como um atributo inseparvel da pessoa, no importa onde esteja. Uma boa lio de histria para o feitor Padilha. 

A ECONOMIA DA SERVIDO
A venda de mo de obra para pases amigos  a maior fonte de entrada de dinheiro em Cuba (valores em dlares).
Dados de 2011.
Explorao do trabalho de cubanos no exterior: 7,8 bilhes
Exportao de produtos em geral: 6,3 bilhes (Principais produtos: Nquel 457 milhes; Acar 283 milhes; Cigarros e charutos 226 milhes; Medicamentos 188 milhes; Bebidas alcolicas 130 milhes).
Turismo: 2,5 bilhes.
Remessa de dlares de cubanos que vivem nos Estados Unidos: 2,3 bilhes.

FORMAO DEFICIENTE
A mdica Damara Morejon deixou o marido e a filha em Cuba para sua segunda misso internacional  nos ltimos cinco anos ela trabalhou na Venezuela. Ela reconhece que sua formao  deficiente: "Os anos de bloqueio nos privaram do acesso aos equipamentos modernos". Alinhada ao discurso oficial, ela trata a vinda ao Brasil como uma "experincia de solidariedade pessoal" e no reclama em pblico de ter mais da metade do salrio confiscado por Cuba.

DISCURSO ENSAIADO
Luisa Diegues, de 48 anos, no se importa em no escolher a cidade onde viver. Tambm no a incomoda ter mais da metade de seu salrio retido em Cuba. Por que, afinal, tanta resignao? "No sou filiada ao Partido Comunista, mas fui criada de acordo com os preceitos da Revoluo Cubana. E concordo com eles", diz. Est em sua terceira misso e j foi "condecorada pelos servios prestados". E, quando surge a pergunta sobre a possibilidade de ficar de vez no Brasil, faz cara feia: "No existe hiptese. Sou uma missionria e minha famlia est toda em Cuba".

AS ILHAS DE EXCELNCIA
     A situao geral da sade pblica no Brasil no  boa; h hospitais superlotados, espera de at trs anos para alguns procedimentos, como uma eletroneuromiografia, e erros grotescos, como injeo de caf com leite na veia de pacientes. Mas existem algumas ilhas que servem para demonstrar que  possvel oferecer um atendimento de excelncia mesmo fora da rede particular  e elas no esto no mar caribenho, mas aqui mesmo, dentro do pas. Inaugurado h um ano, o Instituto do Fgado, na Beneficncia Portuguesa, em So Paulo,  o mais moderno centro de tratamento de doenas hepticas do Brasil. Tornou-se h quatro meses a instituio que mais realiza transplantes no estado. Explica o seu diretor, Ben-Hur Ferraz Neto: "Cerca de 95% dos pacientes so do SUS (Sistema nico de Sade), mas tambm recebemos doentes de convnios e particulares. Esse pool de atendimentos financia um servio de alta qualidade e do mesmo nvel para todos os que nos procuram. 
     O Hospital do Cncer de Barretos  outro exemplo que se tornou referncia no SUS  atende 4000 pessoas por dia em suas trs unidades (Barretos e Jales, em So Paulo, e Porto Velho, em Rondnia) e faz 70% de suas cirurgias de maneira minimamente invasiva, o que reduz o tempo de internao em um tero. Para fechar a conta dos 20 milhes de reais mensais, o hospital faz algo impensvel na ilha dos Castro: recorre ao setor privado, com doaes e eventos com personalidades. "O governo federal paga em mdia 13,5 milhes de reais e o estadual, 2,5 milhes, por meio de um convnio que estimula a melhora dos servios complementando a verba. Mesmo assim, ainda falta. Por isso, recorremos a doaes e eventos. O que falta no fim do ano choro para o ministro da Sade", diz Henrique Prata, diretor do hospital.  mais fcil a medicina cubana ressuscitar Hugo Chvez do que o Brasil aprender alguma coisa com a ilha dos irmos Castro.

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE ARAGO, NATHALIA WATKINS E KALLEO COURA


7. O SILNCIO DOS INOCENTES
O deputado Vicente Cndido no explica por que ofereceu dinheiro a um servidor pblico para tentar convenc-lo a ajudar uma empresa de telefonia.

     Na semana passada, VEJA trouxe  luz um daqueles episdios do submundo da poltica que, de to grotescos, no deixam dvida sobre as consequncias naturais que deveriam ter. Um deputado do PT chamou ao seu gabinete um conselheiro da Anatel, a agncia encarregada de regular e fiscalizar o setor de telecomunicaes, e perguntou quanto ele cobrava para ajudar a companhia Oi a se livrar de multas que somam mais de 10 bilhes de reais. Garantindo que estava  falando em nome da companhia, o deputado Vicente Cndido (SP) foi alm: disse que o governo federal e o ex-presidente Lula estavam muito preocupados com o futuro da Oi e que era preciso adotar medidas urgentes para evitar a bancarrota da tele s vsperas da eleio presidencial do ano que vem. "Honorrios?", escreveu o parlamentar, mostrando ao conselheiro Marcelo Bechara o pedao de papel com a proposta indecente. Procurado por VEJA, o conselheiro confirmou o ocorrido. O deputado tambm confirmou. Dada a gravidade do caso, seria natural esperar medidas enrgicas. Afinal, trata-se da confisso de um crime, ocorrido em pleno Congresso Nacional. Em tempos de apago tico, porm, imperou o silncio. 
     A Anatel, flagrantemente desrespeitada no episdio, no se manifestou. Na reunio do conselho diretor da agncia, na quinta-feira, no houve uma meno sequer  oferta de propina. Foi como se nada tivesse acontecido. No Congresso, poucas vozes se levantaram para condenar a ousadia de Vicente Cndido. Uma delas foi o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). Ele pediu  Corregedoria da Cmara que abrisse investigao para apurar se o petista quebrou o decoro parlamentar. "Vrios deputados me pararam nos corredores dizendo para 'pegar leve'", afirma Sampaio, que tambm props a convocao do ministro das Comunicaes, Paulo Bernardo, e do presidente da Anatel, Joo Rezende, para que falem no Congresso sobre as medidas do governo que podem beneficiar a Oi. A companhia, cujo total de dvidas supera os 20 bilhes de reais, passa por srios problemas financeiros e depende cada vez mais da ajuda oficial para se salvar. A esperana da empresa est numa proposta que tramita atualmente na Anatel, tendo como objetivo reduzir o valor das multas e permitir que o dinheiro que seria usado para pagar os dbitos possa ser aplicado em investimentos. A medida beneficiaria todas as operadoras, mas para a Oi pode ser a tbua de salvao. Era justamente esse o assunto principal da conversa do deputado Vicente Cndido com o conselheiro da Anatel. Alm dele, h outros petistas notrios empenhados em fazer com que tudo d certo. Um socorro providencial que no pode ser operado sob o manto do silncio. 
RODRIGO RANGEL


8. DUPLA PERSONALIDADE
Ex-assessor do Palcio do Planalto  acusado de abusar de meninas pobres oferecendo dinheiro em troca de favores sexuais.
HUGO MARQUES

     Nos sete meses em que ocupou o cargo de assessor especial da Presidncia da Repblica, ningum percebeu nada que pudesse indicar que Eduardo Andr Gaievski escondia uma personalidade perigosa. Nomeado para o cargo pela ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, sua conterrnea e companheira de partido, o petista chegou ao Palcio do Planalto com fama de administrador moderno, dono de uma biografia irretocvel. Bem-sucedido como gerente de empresas multinacionais, trocou a carreira de executivo na iniciativa privada pela poltica. Em 2004, elegeu-se pela primeira vez prefeito de Realeza, cidade do interior do Paran, emergindo a partir de ento como uma promissora liderana no estado. Em Braslia, a fama se consolidou. Articulado, Gaievski foi encarregado de coordenar programas estratgicos do governo Dilma, como o de construo de creches, o de combate ao crack e o de importao de mdicos estrangeiros  tarefas que cumpriu com afinco at a semana passada, quando a Justia decretou sua priso preventiva aps reunir vrios depoimentos que o acusavam de tambm ser um contumaz abusador de crianas e adolescentes. 
     Segundo denncia apresentada pelo Ministrio Pblico do Paran, o assessor especial  acusado de Ter cometido por dezessete vezes estupro de vulnerveis, ou seja, o ato de manter relaes sexuais com crianas menores de 14 anos. A lista inclui ainda onze estupros de menores entre 14 e 18 anos e cinco casos de assdio sexual. A denncia relaciona depoimentos de onze supostas vtimas de Eduardo Gaievski. A promotoria elencou vinte testemunhas contra o ex-prefeito que j prestaram depoimento no procedimento investigativo. "H ainda outras quatro vtimas que apareceram para depor depois que a denncia j tinha sido apresentada", declara o advogado Natalcio Farias, que representa quatro vtimas que mantiveram relaes com Eduardo Gaievski e se dizem ameaadas por ele. Uma delas, identificada apenas pelas iniciais P.B., conta que o ento prefeito de Realeza lhe prometeu um emprego em troca de favores sexuais. "Depois que conseguiu o que queria, ele me demitiu", narra a moa, hoje com 27 anos. "Vivo  base de remdios contra a depresso. Ele acabou com a minha vida." 
     Em outro depoimento, a adolescente A.P. contou que tinha 13 anos quando foi levada a um motel da cidade para manter relaes sexuais com o prefeito. Ela disse que recebia entre 150 e 200 reais por encontro. Um dos relatos mais chocantes envolve uma garota de apenas 12 anos, moradora de uma rea pobre da cidade de Realeza. "Eu tinha medo de minha me descobrir", contou a menina. Os promotores anexaram  investigao um laudo mdico sobre a violncia sexual. Eduardo Gaievski ainda  acusado de assdio por ameaar demitir funcionrias da prefeitura que recusavam propostas para encontros com ele. O prefeito tambm pressionava suas subordinadas a prestaR alguns servios heterodoxos. Uma delas disse aos promotores que o chefe tentou obrig-la a arregimentar "meninas" para encontros sexuais com ele. A investigao comeou com uma denncia de explorao sexual que estaria ocorrendo nas dependncias de um motel de Realeza. A polcia passou ento a monitorar o estabelecimento. H vdeos, depoimentos e conversas telefnicas que incriminam o assessor da Presidncia. Gaievski foi demitido pela ministra Gleisi Hoffmann menos de 24 horas depois da decretao da priso. Na semana passada, policiais estiveram no Palcio do Planalto  procura do ex-assessor presidencial, considerado oficialmente foragido da Justia. Antes de fugir, ele disse a VEJA que era vtima de perseguio, "isso tudo  uma armao poltica para me atingir." 


